Publicidade

Por Que os Humanos São Insubstituíveis?

O Perigo de Abdicarmos de Nossa Humanidade no Trabalho

8 de dezembro de 2025 08:30
por:

Maria Luiza Reis é uma engenheira mecânica e PhD em Engenharia Nuclear, cuja carreira em tecnologia começou cedo e se destacou por sua contrib...

Uma recente tragédia noticiada nos jornais – a morte de uma criança devido a um erro de prescrição médica – vai além de uma falha clínica isolada. A médica reconheceu o equívoco, e a técnica de  enfermagem admitiu ter estranhado a dosagem, mas aplicou-a mesmo assim por seguir ordens. Este  caso, para além das investigações cabíveis, serve como um alerta severo sobre a cultura do trabalho  em equipe na sociedade moderna. 

A premissa fundamental de qualquer sistema coletivo é a de que as pessoas falham. O antídoto para  essa falibilidade inerente não é a infalibilidade individual, mas a vigilância colaborativa.  Trabalhamos em grupo justamente para que um olho critique o outro, para que uma percepção  diferente intercepte um erro antes que se torne uma tragédia. A pergunta crucial é: ainda sabemos  trabalhar assim? 

Há uma sensação crescente de que o individualismo está corroendo este princípio. Muitas vezes,  profissionais reduzem seu escopo de responsabilidade a uma lista fechada de tarefas, como se seu  compromisso ético e intelectual terminasse nas bordas de sua função. “Não é minha função” ou “Já  tenho problemas suficientes” tornam-se mantras que isolam e fragilizam todo o sistema. 

Este comportamento tem um custo altíssimo. Equipes ou instituições que veem com desdém  questionamentos e críticas construtivas criam uma cultura do silêncio. Neste ambiente, evitar  constrangimentos ou conflitos torna-se mais importante do que evitar desastres. O profissional com  visão crítica, essencial para a resiliência do grupo, é tolhido ou marginalizado. 

Aqui reside um paradoxo perigoso: ao nos comportarmos como robôs – executando ordens sem  questionar, focando apenas em processos predefinidos –, nós mesmos pavimentamos o caminho  para nossa substituição. A automação e a IA avançam exatamente em tarefas repetitivas, baseadas  em regras e com escopo limitado. 

Mas a tragédia citada expõe justamente o que máquinas não podem oferecer: responsabilidade ética, empatia e julgamento contextual. Um robô pode acumular todo o conhecimento médico do mundo e ser infinitamente rápido, mas:

· Ele não pode assumir responsabilidade por um erro, apenas apontar sua possível ocorrência. 

· Ele não sente o desconforto da empatia que faz uma técnica estranhar uma dose anormal para uma  criança. 

· Ele não busca soluções para problemas fora de seu escopo inicial porque não tem um “escopo  moral”, apenas um técnico. 

Pior: podemos estar criando um precedente absurdo. Um robô pode errar tanto ou mais que um  humano, mas a culpa, por definição, sempre recairá sobre um ser humano – o programador, o  supervisor, a instituição. Esta transferência de responsabilidade não torna o sistema mais seguro; ela dilui a accountability e afasta dos postos de liderança justamente aqueles que teriam a coragem de  assumir a responsabilidade pelo todo. 

O verdadeiro antídoto, portanto, não é mais tecnologia cega, mas a reafirmação corajosa do que nos  faz humanos no trabalho: a coragem de questionar, o compromisso com o resultado coletivo (e não  apenas com a tarefa individual) e a empatia que nos faz nos importar com as consequências de  nossos atos – e dos atos dos nossos colegas. 

A máxima perigosa não é “robôs vão substituir pessoas”, mas “pessoas que se comportam como  robôs já se tornaram substituíveis”. Nosso valor futuro não estará em executar ordens, mas em ter o  discernimento para, quando necessário, questioná-las em nome de um bem maior. É essa  humanidade, intransferível e complexa, que ainda nos torna insubstituíveis e capazes de evitar as  tragédias mais evitáveis.

Publicidade

Desenvolvido por: Leonardo Nascimento & Giuliano Saito