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*Por Gabriel Vinicius Camarinho Moreira
Imagem: Divulgação
Vivemos uma era em que a tecnologia nunca esteve tão presente no nosso dia a dia. Processos foram automatizados, equipes passaram a colaborar à distância e a Inteligência Artificial começou a assumir tarefas cada vez mais complexas. Se, por um lado, a transformação digital ampliou a produtividade e reduziu barreiras geográficas, por outro evidenciou um desafio que não pode ser resolvido apenas por plataformas ou algoritmos: fortalecer as relações entre as pessoas.
Essa preocupação não é apenas uma percepção. Dados da Gallup mostram que 28% dos profissionais que atuam em modelos híbridos afirmam sentir-se menos conectados à cultura de suas organizações, enquanto 55% apontam que o maior benefício dos momentos presenciais é justamente construir relacionamentos com outras pessoas.
Esse cenário ajuda a explicar um movimento que vem ganhando força nos últimos anos. Em vez de concentrar esforços apenas em benefícios tradicionais ou ações pontuais de integração, muitas empresas passaram a investir na criação de comunidades internas capazes de reunir colaboradores em torno de interesses compartilhados.
A lógica é simples: projetos aproximam pessoas por necessidade; comunidades aproximam pessoas por escolha.
Sejam grupos de tecnologia, inovação, voluntariado, leitura, diversidade ou atividade física, essas iniciativas criam espaços onde as relações se desenvolvem de forma espontânea, ultrapassando os limites das equipes e da estrutura organizacional. O resultado vai além da interação entre colaboradores: fortalece a colaboração, amplia o senso de pertencimento e contribui para uma cultura mais conectada.
Esse movimento ganha ainda mais relevância em um contexto de trabalho híbrido. Quando parte das interações acontece por telas, criar oportunidades de convivência deixa de ser apenas uma iniciativa de clima organizacional e passa a ser uma estratégia de fortalecimento da cultura organizacional.
Um dos exemplos mais interessantes desse movimento está na corrida de rua.
Além da atividade física, a corrida tornou-se uma das maiores comunidades da atualidade. Antes mesmo da largada, desconhecidos compartilham experiências, trocam orientações, comentam sobre os treinos e incentivam uns aos outros. Ao cruzar a linha de chegada, a prova termina, mas permanecem os grupos de treino, as conversas, as amizades e o sentimento de pertencimento que faz as pessoas acordarem cedo, todos os finais de semana, para viver novamente essa experiência.
Não por acaso, esse movimento cresce em ritmo acelerado. O interesse dos brasileiros pela corrida vem aumentando de forma consistente desde 2023, segundo dados do Google Trends. Já o relatório de Tendências Esportivas do Strava apontou a corrida como o esporte mais praticado no mundo em 2025, refletindo um crescimento que também é percebido pelo número recorde de participantes em provas de rua e pela expansão de grupos e assessorias esportivas em diferentes cidades.
O fenômeno mostra que, muitas vezes, as pessoas começam pela atividade, mas permanecem pela comunidade.
Essa mesma lógica tem inspirado iniciativas dentro das empresas. Programas voltados ao esporte, ao bem-estar e à qualidade de vida deixam de ser apenas ações de incentivo à saúde para se tornarem espaços de convivência, integração e fortalecimento das relações entre colaboradores. Quando profissionais de diferentes áreas passam a compartilhar objetivos, desafios e conquistas fora da rotina de trabalho, criam vínculos que naturalmente se refletem no ambiente organizacional.
Em um momento em que tanto se discute o impacto da Inteligência Artificial sobre as organizações, talvez uma das maiores oportunidades esteja justamente em valorizar aquilo que permanece essencialmente humano.
A tecnologia continuará transformando processos, acelerando decisões e conectando pessoas à distância. Mas são as comunidades que transformam essa conexão em confiança, colaboração e pertencimento, ativos cada vez mais estratégicos para organizações que desejam construir culturas fortes, resilientes e preparadas para os desafios do futuro.
Gabriel Vinicius Camarinho Moreira é assistente de Marketing no Instituto das Cidades Inteligentes (ICI), graduado em Administração pela FAE Centro Universitário, corredor de rua amador e entusiasta da gestão de comunidades.
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