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Mulheres redesenham tecnologia, gestão e inclusão no Brasil, mas avanço na liderança ainda é lento

Executivas das áreas de foodtech, tecnologia assistiva, engenharia de software e produto analisam os desafios estruturais e o impacto econômico da presença feminina no comando

10 de março de 2026 08:30

Em 2025, mulheres ocupavam 34% dos cargos de alta gestão em empresas de médio porte no mundo, segundo o relatório Women in Business da Grant Thornton. O número é pouco superior ao de 2024 (33%), mas o próprio estudo alerta que o ritmo atual ainda exigirá mais de 25 anos para que a paridade seja alcançada. No setor de tecnologia, o cenário é ainda mais desafiador: dados da McKinsey indicam que, para cada 100 homens promovidos de cargos iniciantes para gerência, apenas 87 mulheres avançam. Já a Accenture aponta que elas deixam a área tech em uma taxa 45% maior que a dos homens.

Ao mesmo tempo, o protagonismo feminino na economia brasileira cresce. Segundo o relatório mais recente do Global Entrepreneurship Monitor, divulgado pelo Sebrae, 54,6% dos brasileiros com intenção de empreender até 2026 são mulheres. Dados do IBGE mostram ainda que mais de 41 milhões de domicílios no país têm mulheres como principais provedoras.

Para Élida Queiroz, CEO da Altec, foodtech brasileira de software de gestão para bares e restaurantes, a discussão ultrapassa a representatividade. “Não se trata apenas de ocupar espaço, mas de transformar a forma como decisões são tomadas. Liderança feminina tem forte orientação a processo, dados e construção de times, e isso impacta diretamente a sustentabilidade do negócio”, afirma.

Na área de engenharia e tecnologia, Elis Hernandes, diretora de desenvolvimento da Marlabs, consultoria global especializada em serviços de inteligência artificial, TI e inovação personalizadas para empresas, e PhD em Engenharia de Software, destaca que a presença feminina em cargos técnicos estratégicos ainda enfrenta barreiras estruturais. “A tecnologia molda o futuro das empresas e da sociedade. Quando ampliamos a diversidade na liderança técnica e executiva, ampliamos perspectivas, a qualidade das soluções e a capacidade de inovação”, diz.

Para Maíra Gregolin, líder de produto da TrackingTrade, empresa especializada em governança operacional, o cenário atual exige uma nova forma de autoridade. “Cada transformação tecnológica cobra um preço de quem lidera: ou você se adapta ao novo modus operandi, ou perde a conversa. E venho percebendo que mulheres em tecnologia desenvolvem essa capacidade de forma mais visceral.”

Por estar em posição de liderança durante as grandes transformações tecnológicas dos últimos anos, como a virada digital da pandemia, a ascensão dos dados como ativo de negócio e, agora, a inteligência artificial mudando a forma como as empresas operam, Gregolin comenta que cada fase pediu habilidades novas. “Em tão pouco tempo, desde a pandemia, o mercado vem mudando bastante. A IA escancarou algo que já existia: a profundidade de pensamento não tem substituto. E para as lideranças femininas, que historicamente precisaram construir argumentos antes de ganhar espaço, isso não é novidade. É exatamente o que sempre fizemos, afirma.

Já Monica Lupatin, diretora de Negócios do ICOM, socialtech brasileira líder em serviços de inclusão e comunicação acessível para a comunidade surda, e referência em tecnologia assistiva, reforça o papel da liderança feminina na construção de ambientes mais inclusivos. “Tecnologia não pode ser pensada apenas sob a ótica da eficiência. Inclusão e acessibilidade precisam estar no centro da estratégia empresarial. Quando as mulheres lideram essa agenda, ampliamos o alcance social das soluções”, afirma.

Os dados mostram que as mulheres estão empreendendo mais, sustentando lares e ocupando posições estratégicas. Ainda assim, a promoção desigual e a evasão no setor de tecnologia revelam que o avanço é mais lento do que poderia ser. Ou seja, o mercado já reconhece a competência feminina, mas a velocidade de transformação ainda depende de decisões concretas dentro das organizações. O recado é claro: não basta celebrar avanços pontuais, é preciso acelerar mudanças estruturais para que a liderança feminina deixe de ser exceção e se consolide como regra.

 

Assessoria

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