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Estudo do MIT aponta que 95% das iniciativas de IA generativa nas empresas ainda não geram retorno financeiro, e que o problema pode estar mais na forma de implementação do que na tecnologia
Imagem: Divulgação
Um estudo recente do MIT apontou que a imensa maioria, cerca de 95%, das iniciativas corporativas de IA generativa ainda não gera retorno financeiro mensurável, mesmo em um cenário em que muitas grandes empresas já usam alguma forma da tecnologia. O número expõe um problema que, segundo o especialista em implementação de IA em ambientes corporativos Bruno Pinheiro, fundador da consultoria franco-brasileira Groovia, não está na ferramenta em si, mas na forma como ela é introduzida na operação.
“O número sugere algo incômodo, pois indica que o problema quase não está na ferramenta em si, e sim na forma como ela é introduzida na operação. A IA agêntica é a geração mais recente da tecnologia, formada por agentes que executam tarefas inteiras sem supervisão constante, e sua chegada eleva o custo desse erro”, avalia Pinheiro.
Na visão dele, a diferença em relação ao chatbot que a maioria conhece “é de natureza, não de grau: o agente conduz um processo do começo ao fim, em vez de responder a um comando por vez”. Implementar essa tecnologia exige uma sequência que poucas empresas respeitam, e o ponto de partida muda conforme o estágio de maturidade de cada uma: as que ainda tratam a IA como assunto de estratégia, no estágio que o especialista chama de AI First, precisam começar pelo básico, enquanto as que já a têm incorporada à cultura, no estágio AI Native, conseguem entrar direto pelo redesenho da estrutura.
O primeiro passo, defende Pinheiro, não envolve tecnologia, e sim pessoas: é o letramento da própria liderança. “Antes de comprar qualquer ferramenta ou cobrar resultados da equipe, o executivo precisa entender o que a IA agêntica faz e o que ela muda na operação que comanda. Hoje, o executivo não tem letramento suficiente, mas implementa mesmo assim e cobra de quem não sabe usar”, afirma. Sem essa base no topo, segundo ele, qualquer etapa seguinte acaba apoiada no improviso.
Com a liderança preparada, vem a revisão da estratégia, o exercício de definir o que continua sendo feito por pessoas e o que passa a ser feito por agentes. É também o momento de rever o organograma, já que cargos desenhados para um trabalho totalmente humano deixam de descrever a operação real. “Hoje a gente trabalha com job description, e em alguns meses não vai ser mais assim. O líder deixa de executar o plano e passa a orquestrar pessoas e agentes”, diz Pinheiro. Esse arranjo, que ele chama de liderança híbrida, organiza o time por habilidades, e não por funções fixas.
Há uma etapa que, segundo o especialista, costuma ficar de fora e é a que mais expõe a empresa: a governança. “Antes de colocar os agentes para rodar, é preciso definir a governança, o que a IA pode acessar, o que pode publicar e o que exige validação humana. Sem essas regras, a companhia se arrisca a vazamento de dados e a decisões automáticas sem responsável claro”, afirma Pinheiro, destacando que o risco é ampliado num cenário em que a LGPD limita o uso de informação e a NR-1 já cobra gestão de riscos no ambiente de trabalho.
Para quem opera o dia a dia, dominar a IA agêntica passa a exigir habilidades novas. “Falo em gestão de contexto, que é reunir e organizar as informações de que o agente precisa, e em comando preciso, saber exatamente o que pedir. Somo a isso a organização da memória, o histórico que faz o agente melhorar com o uso, e o que considero o ponto mais difícil, reimaginar os processos em vez de apenas transferir para a máquina os que já existem”, explica. Sem esse preparo, segundo o especialista, cerca de 60% das demandas passadas a um agente voltam erradas, o que devolve ao profissional o trabalho de revisar a máquina, somado ao próprio.
Ao chegar ao time, a empresa enfrenta a decisão que mais pesa no resultado final. Como parte das tarefas passa a ser feita por softwares, a reação mais comum é cortar pessoal, mas Pinheiro defende o contrário. “Redistribuir funções e potencializar o que a equipe já entrega. Quando o caminho é o corte às pressas, o que a empresa amplifica é o erro, não o ganho”, afirma.
Feita na ordem certa, avalia o especialista, a implementação da IA agêntica tende a entregar o ganho de produtividade que motivou a corrida por essa tecnologia. O atalho, em contrapartida, costuma produzir o efeito contrário. “As empresas que pularem etapas devem sentir os impactos negativos em 18 a 24 meses, na forma de projetos sem retorno, retrabalho e equipes sobrecarregadas. A diferença que separa um cenário de outro está, muitas vezes, na sequência que a liderança escolhe seguir, e não no software contratado”, conclui Pinheiro.
Assessoria
Desenvolvido por: Leonardo Nascimento & Giuliano Saito