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Repertório, conhecimento do negócio e capacidade de avaliar respostas ganham peso com avanço da tecnologia
Imagem: Magnific
A popularização do ChatGPT e de outras ferramentas de inteligência artificial reforçou a ideia de que os mais jovens teriam vantagem natural no uso da tecnologia. Mais acostumados ao ambiente digital, eles seriam mais rápidos para testar novas plataformas e incorporar ferramentas ao trabalho.
Para Daniel Delgado, especialista em análise de dados (@doutoresdoexcel no Instagram), essa leitura deixa de fora um ponto importante. A IA pode acelerar tarefas, mas ainda depende de alguém que saiba definir o problema, avaliar a resposta e entender o impacto daquela solução dentro de uma empresa.
Esse conhecimento, afirma, não vem apenas de cursos, certificados ou treinamentos de curta duração. Também vem de processos que deram errado e precisaram ser reorganizados, de decisões tomadas com informação incompleta e da capacidade de entender por que um relatório importa antes mesmo de saber como construí-lo.
“A IA já faz o ‘como’. O que ela não tem é o ‘que’ você quer construir”, diz Delgado. “O profissional de logística que passou dez anos resolvendo problemas de estoque sabe exatamente o que pedir para a IA. O jovem que acabou de sair da faculdade não faz ideia. Ele ainda está aprendendo qual é o problema”, diz.
O que dizem os dados
O avanço da IA tem aumentado a procura por qualificação dentro das empresas. O Job Skills Report 2026, da Coursera, aponta alta de 234% nas matrículas em cursos de IA generativa entre alunos corporativos e crescimento médio de 120% nas matrículas em cursos de pensamento crítico nas áreas analisadas.
O relatório afirma que a tecnologia automatiza parte das tarefas em áreas de alta demanda e muda as competências necessárias para acompanhar esse movimento. Na área de dados, segundo a Coursera, cresce a importância do julgamento humano para validar resultados produzidos com apoio da IA.
Para quem já tem repertório acumulado, essa combinação pode ser favorável. O conhecimento do negócio ajuda a formular pedidos melhores, identificar erros e transformar a resposta da ferramenta em solução útil para a empresa.
Outro relatório, o Global AI Jobs Barometer 2025, da PwC, aponta que trabalhadores com habilidades em IA têm, em média, prêmio salarial de 56% em relação a profissionais da mesma ocupação sem essas competências. O levantamento analisou quase 1 bilhão de anúncios de emprego em seis continentes.
“A IA alucina. Ela comete erros com muita confiança. Quem tem experiência no negócio percebe o erro imediatamente. Quem não tem, entrega o erro para frente sem perceber”, afirma Delgado.
O caso de César
César Augusto Verçosa Mariano começou na área de suporte de TI, com montagem de computadores e atendimento a chamados. Era um perfil mais associado à operação do que à criação de soluções dentro da empresa.
Com o objetivo de crescer na carreira, passou a estudar Excel, depois Power BI e, mais tarde, inteligência artificial. A partir daí, começou a criar ferramentas para problemas que já conhecia no dia a dia do trabalho.
Segundo Delgado, que acompanhou o processo, César passou a desenvolver sistemas com IA para resolver tarefas que antes demoravam mais ou dependiam de planilhas antigas sem atualização. Ele não virou desenvolvedor. Continuou na área de TI e manteve o conhecimento dos processos internos. A diferença, afirma o especialista, é que passou a entregar soluções que antes dependiam de uma equipe maior.
A empresa adotou ferramentas criadas por ele, e César saiu de uma função operacional para assumir posições de supervisão e coordenação. “Ele começou a ser visto na empresa de outra forma. Hoje a empresa utiliza as soluções que ele criou”, diz Delgado.
O que as empresas podem fazer
Para gestores e profissionais de RH, o caso de César, segundo Daniel, indica que trabalhadores com conhecimento dos processos internos podem ganhar produtividade quando recebem formação para usar IA no trabalho.
O Fórum Econômico Mundial projeta a criação de 170 milhões de novos postos até 2030 e o deslocamento de 92 milhões, com saldo líquido de 78 milhões de empregos. O relatório também aponta IA, big data e cibersegurança entre as competências em alta e cita habilidades como pensamento analítico, resiliência, liderança e colaboração entre as capacidades valorizadas no mercado de trabalho.
Profissionais experientes podem se beneficiar desse cenário quando combinam domínio da área com uso da tecnologia, afirma Delgado. Segundo ele, esse perfil tende a dialogar melhor com equipes de tecnologia, propor soluções para problemas já conhecidos e apresentar resultados com a maturidade de quem entende o funcionamento do negócio.
A janela, diz Delgado, não fica aberta por tempo indefinido. Em sua avaliação, saber usar IA deve deixar de ser diferencial nos próximos anos e passar a ser uma exigência para muitas funções. Quem começa agora ainda pode ocupar espaço dentro da empresa; quem espera tende a chegar quando essa habilidade já será cobrada como parte do trabalho.
Assessoria
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